O aroma das madeleines invadem a viela movimentada em Aix-en-Provence e eu sou atraído para a fonte feito mariposa para uma lâmpada. Observo encantado, mas não compro. É preciso levar ao menos seis, elas são grandes e eu já fui enganado vezes demais para confiar em aromas que tomam quarteirões. Comida de rua encanta por ocupar o espaço público, pela simplicidade, pela acessibilidade, pela importância cultural. Pena que raramente seja sensorialmente extraordinária, há muita superestimação. Acredito que um confeiteiro talentoso possa ter mais rendimentos e qualidade de vida vendendo centenas de madeleines por dia que trabalhando num restaurante chique. Mas nós, enquanto sociedade, damos mais reconhecimento e distinção aos que oferecem seu talento ao refinamento de poucos que à alegria de muitos.

Passando de novo pela viela no fim da tarde, apetite vencendo a razão, me convenço a levar seis das gorduchas, pois posso guardar metade para o café da manhã. Proust que me desculpe, mas molhar as madeleines do Christophe no chá seria desperdício. Desperdício das bordas crocantes, intensas em reação de Maillard e caramelo que grudam nos dentes. Desperdício do interior denso, macio, amanteigado e fumegante que reveste a boca em untuosidade e aromas frescos de casca de limão. Sobrou nada para o café da manhã.
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